Se a emissão vem da embalagem, a solução também precisa passar pela embalagem.
Sem categoria | Por em 13 de outubro de 2026

Quando compramos uma garrafa de refrigerante, um pote de shampoo, uma caixa de cereal ou uma embalagem de delivery, existe carbono envolvido em quase tudo: na extração da matéria-prima, na fabricação da embalagem, no transporte, no consumo e no descarte.
Para quem fabrica esses produtos, muitas dessas emissões não aparecem dentro da fábrica. Elas estão na chamada cadeia de valor. No mundo das metas climáticas, isso é conhecido como Escopo 3. É uma forma técnica de dizer que a empresa também precisa olhar para o impacto que acontece antes e depois da sua operação direta.
Nos últimos anos, muitas empresas passaram a medir essas emissões e a prometer reduzi-las. Algumas diminuíram o peso das embalagens. Outras trocaram materiais. Outras criaram refis. Tudo isso é importante e deve continuar acontecendo. Se uma empresa consegue usar menos plástico, menos papel, menos vidro ou menos alumínio, ela reduz parte do seu impacto.
Mas há uma pergunta que ainda precisa ser respondida: e o que acontece com as emissões que continuam existindo?
Mesmo com embalagens mais leves e produtos mais eficientes, o mundo continuará usando materiais. E esses materiais precisam ter um destino. Se forem parar em aterros, lixões, rios ou oceanos, perdemos valor econômico e aumentamos o impacto ambiental. Se forem reciclados, podem voltar para a indústria como matéria-prima e evitar a produção de novos materiais virgens.
É aqui que a reciclagem ganha um novo papel.
Durante muito tempo, a reciclagem foi vista principalmente como uma boa prática ambiental. Separar o lixo, entregar o material corretamente, apoiar cooperativas, cumprir regras de logística reversa. Tudo isso continua válido. Mas agora a reciclagem pode ser vista também como uma solução climática.
Quando uma lata, uma garrafa, uma embalagem plástica ou uma caixa de papel é reciclada, ela pode substituir parte da matéria-prima nova que seria usada pela indústria. Produzir com material reciclado costuma evitar emissões em comparação com produzir tudo a partir de matéria-prima virgem. Portanto, reciclar também é uma forma de reduzir carbono.
A diferença é que, para isso valer no mercado climático, não basta dizer que reciclou. É preciso provar.
O material precisa ser pesado, classificado, registrado, rastreado e destinado corretamente. É preciso saber de onde veio, para onde foi e qual impacto climático gerou. Em outras palavras, a reciclagem precisa sair do discurso e entrar na lógica da evidência.
Esse é o ponto central da nova discussão internacional sobre metas climáticas corporativas. A SBTi, uma das principais referências globais em metas de redução de emissões, vem reforçando que as empresas devem priorizar ações conectadas à sua própria cadeia de valor. Ou seja, uma empresa não deve simplesmente comprar qualquer crédito de carbono distante da sua realidade e dizer que resolveu o problema.
Se a emissão vem das embalagens, a solução climática mais coerente deve estar ligada às embalagens.
Isso não significa abandonar outras soluções. Reduzir embalagem, redesenhar produtos, criar refis e trocar materiais continuam sendo medidas fundamentais. Mas essas ações reduzem o inventário da empresa. Depois delas, ainda sobra uma parte do impacto ligada aos materiais que continuam circulando na economia.
Para essa parte, o crédito de carbono da reciclagem pode se tornar uma resposta muito mais coerente do que créditos genéricos.
Imagine uma empresa de bebidas que coloca milhões de garrafas no mercado. Faz sentido ela reduzir o peso das garrafas? Sim. Faz sentido usar mais material reciclado? Sim. Faz sentido investir em refil quando possível? Sim. Mas, se ainda existe emissão ligada às embalagens, o crédito climático mais alinhado com esse impacto é aquele que financia a coleta, a triagem e a reciclagem de materiais semelhantes ou conectados à sua cadeia.
O mesmo vale para cosméticos, alimentos, produtos de limpeza, comércio eletrônico e supermercados. Quem coloca embalagem no mercado precisa ajudar a transformar embalagem usada em matéria-prima novamente.
Essa lógica pode mudar a forma como empresas compram créditos de carbono. Em vez de escolher apenas o crédito mais barato ou mais fácil, elas terão de buscar créditos com maior conexão com seu próprio impacto. Para embalagens, essa conexão passa pela reciclagem.
O Brasil tem uma oportunidade enorme nesse tema. Temos milhões de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com a coleta e reciclagem de materiais. Temos cooperativas, catadores, operadores locais e empresas criando tecnologia para rastrear melhor os resíduos. Mas ainda reciclamos muito menos do que poderíamos.
O crédito de carbono da reciclagem pode ajudar a mudar essa conta. Ele pode gerar dinheiro novo para pagar melhor a cadeia, melhorar a infraestrutura, profissionalizar a coleta e aumentar a quantidade de material reciclado. Ao mesmo tempo, ajuda empresas a enfrentarem suas emissões de forma mais próxima da origem do problema.
No fim, a ideia é simples: crédito de carbono não pode ser apenas uma forma de limpar a consciência. Ele precisa ajudar a transformar sistemas reais. E poucos sistemas precisam tanto de transformação quanto o dos resíduos.
Se a emissão nasce da embalagem, a mitigação mais justa, rastreável e compreensível deve nascer da circularidade da embalagem. Reciclar, nesse novo cenário, deixa de ser apenas separar o lixo corretamente. Passa a ser também uma ferramenta concreta de combate à crise climática.






































































Tatiana Gomes, jornalista formada, atualmente presta assessoria de imprensa para a Editora Banas. Foi repórter e redatora do Jornal A Tribuna Paulista e editora web dos portais das Universidades Anhembi Morumbi e Instituto Santanense.
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), cursando MBA em Informações Econômico-financeiras de Capitais para Jornalistas (BM&F Bovespa – FIA). Com sete anos de experiência, atualmente é editora-chefe da Revista P&S. Já atuou como repórter nos jornais Todo Dia, Tribuna Liberal e Página Popular e como editora em veículo especializado nas áreas de energia, eletricidade e iluminação.